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Nossa criança interior… 12/10/2011

Posted by Liduina Benigno in Ensaio.
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Exercícios para o equilíbrio...

Há uma criança que habita nosso ser.  Somos seres de expansão e crescimento. Somos capazes de evoluir. Sempre.  Da ouverture até o epílogo da  grande ópera da vida precisamos continuar afinando instrumentos. E construir esse crescimento exige refletir  sobre a coragem para  transformar as  próprias atitudes.

Se olharmos com olhos que enxergam, veremos que nos dividimos entre pessoas rígidas, cujo repertório de  atitudes muda pouco; e pessoas de vontade fraca. Decisões  mutáveis. Em rotatividade. Permanente adaptar-se aos outros. Ao ambiente.

Das primeiras, podemos dizer que têm dificuldades para perceber a vida em constante fluxo. Agem de forma estereotipada. Movidas pelo hábito,  por opiniões e visões fechadas.

Alguém já apelidou à dificuldade para mudar pensamentos e atitudes como “Síndrome de Gabriela”. Mas, quando Dorival Caymmi compôs ‘Modinha para Gabriela’, o refrão “Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim, vou ser sempre assim” quis homenagear  a pureza de Gabriela.

Caymmi não se referia à distorção comportamental que caracterizaria a “síndrome” . Ou seja,  à conduta de alguém condenado  a repetir-se eternamente. Refém da própria rigidez.

No sentido oposto, temos as pessoas que mudam a toda hora, descaracterizando a própria identidade. Chamadas vulgarmente  de “maria vai com as outras”. Essas pessoas esquecem suas referências internas, assumindo as exigências alheias em detrimento das própria motivações .

As pessoas rígidas apresentam tendência a alimentar sentimentos de rancor e negatividade. Apegam-se a mágoas do passado, com dificuldade para transpor a barreira do tempo. Atualizar sentimentos.  Elas se apegam às opiniões com fervor. Nas discussões, não debatem idéias, se entricheiram nos próprios pontos de vista, incapazes de enxergar diversas perspectivas. Seguem na míopia do apego a um único ponto da questão.

Por essas e outras características, as pessoas rígidas tiram pouco proveito, extraem  menos da vida. Apresentam hábitos arraigados. Sofrem quando precisam mudar uma vírgula que seja do texto que escreve sua história.

Essas atitudes extremas, embora comuns,  não ajudam no processo de crescimento humano.  A rigidez e  a vontade lábil são deformações. Podem levar-nos a a agir como adultos empedernidos e teimosos ou como seres alienados da  própria identidade.

Mas se somos seres vocacionados para a evolução, por que é tão difícil dosar atitudes?

A flexibilidade é atributo humano ligado à maturidade do eu. Para integrar esse atributo às nossas ações é necessário lembrar da infância. Recordar o comportamento infantil.

É próprio da infância, a disponibilidade para experimentar e conhecer. À proporção que vamos amadurecendo, costumamos adotar atitudes de afastamento do risco e da novidade. Vamos fixando padrões de identidade adulta e perdendo contato com a criança interna: nossa capacidade de tatear caminhos.

Amadurecer, ser adulto equilibrado não se confunde com padrões artificiais e imutáveis de comportamento. Significa navegar com bússola própria, mas sabendo que diferentes caminhos exigem distintas formas de navegação.

A consciência de como nos relacionamos com essa “criança interna”, que representa a lógica da mente mais emocional e intuitiva, em contraponto com a capacidade de adotar a lógica mais racional do adulto,  fruto do amadurecimento pertinente do “eu” talvez seja a senha para acharmos  o “caminho do meio” como dizia Aristóteles, ou seja, o caminho da temperança. Da dose certa.

Olhando a forma como nossa sociedade trata suas crianças  – maus-tratos ou exagerada proteção, permissividade, negligência – talvez identifiquemos algo de como tratamos nossa “criança interna”; isto é, como nos relacionamos com os registros de nossa vivência infantil.  A criança interna de cada um de nós representa a lógica do pensamento voltado para a intuição,  o sonho,  a poesia e o mito.  Ela é o tempero para a  firmeza  exigida pelo mundo adulto e que muitas vezes, tansformamos em crueza, rigidez e até crueldade .

A canção Roda Viva de Chico Buarque fala-nos de sentimentos em momentos de crise:

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou  foi o mundo então que cresceu…’

É realmente difícil superar alguns momentos de crise. Mas se o mundo cresce, nós temos ferramentas para não ‘estancar’ nosso crescimento e sermos capazes de dar conta dos movimentos do mundo. Somos vocacionados à transformação.

Na  poesia Sonho de um sonho, Drumond faz um convite a estarmos abertos. Fala-nos disso como de um sonho:

Eu sonhava que estava alerta,
e mais que alerta, lúdico,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
vinha cingir-me e dourar-me.

Então, rígidos ou muito influenciáveis? Vai depender, consideravelmente, de integrarmos a criança que habita em nós.

De como a trataremos.

Brincar, experimentar, navegar ...


Dedico este ensaio às crianças do mundo, principalmente, às que sentem fome. Qualquer tipo de fome. Dedico-o, especialmente, às crianças da Somália.

Comentários»

1. Dani - 12/10/2011

Oi linda…minha criança se sentiu homenageada e meu adulto alimentado e enriquecido…forte abraço…Dani

2. Elieuza - 12/10/2011

Lidu, sua escrita vem do coração e toca o nosso coração! Parabéns pela bela mensagem!

3. Bruno Benigno - 13/10/2011

A criança é livre dos esteriótipos, dos pré-conceitos, das regras sociais, que trazem um peso, limitador da criatividade, da inspiração. A criança não tem medo de errar. Com o passar dos anos, costumamos nos cercar das responsabilidades do trabalho, do cuidado com a casa, com a família, e a própria imagem criada por nós perante os terceiros, o que nos limita a mudar, a ousar, pois acabamos presos aquilo que já construímos e muitas vezes mudar significa justamente abrir mão do que já se fez, admitir que não foi o bastante, de que ainda há muito a buscar. O desafio de se reinventar não deve ser limitado pelas obrigações, ou pela idade, pois como diria o poeta R. Russo, “temos nosso próprio tempo, e o que fizemos no passado “não foi tempo perdido”. Portanto, entendo que continuar sendo criança é se permitir fazer coisas novas, sem as amarras da censura social, é saber envelhecer. Quando conseguimos isso, nos reencontramos com a nossa criança interior, olvidada por anos na fase adulta, mas que reaparece quando vem a maturidade do ser, quando nos rencontramos conosco, geralmente em uma fase em que percebemos que a vida é um ciclo autofágico,definido por Buda pelo símbolo do Ouroboro. Tal momento independe da idade cronológica, pois é mais ligado à idade da alma, ou como diria o poeta, ” a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer” ( Arnaldo antunes). Para finalizar, gostaria de agradecer o belo texto, que me fez companhia em um momento de solidão em jampa, que me permitiu lembrar da minha avó, dona Isabel Leilá,que depois de adulta , casada e mãe de família se descobriu uma artista completa.

Liduina Benigno - 14/10/2011

Bruno,
O orgulho que sinto por sua inteligência e agudeza nas análises não é à toa. Você tão jovem e tão culto e com grande perspicácia. Continue na escalada de aproveitamento de suas habilidades e aptidões.
Obrigada pela visita e comentário.
Beijo

4. Audizio - 13/02/2012

Lidu, esse ensaio caiu como uma luva nas minhas mãos. Creio que devemos viver cada momento em nossas vidas de acordo com a idade e as condições ambientais que nos proporcionam. Quanto mais avançamos na idade, maior é a tendência à rigidez no campo das idéias. No entanto, a flexibilidade do nosso entendimento em compreender o outro e respeitar o seu pensamento nos permite exercitar a tolerância. Um dia, todos querem chegar à velhice com saúde e lucidez para contar histórias, falar de experiências pessoais, apresentar idéias, defender opiniões e crenças. Quanto mais estivermos dispostos a ouvir e entender o contexto de vida de cada um, mais estaremos nos posicionando como crianças desprovidas de preconceitos. Um grande abraço e parabéns pelo texto!


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